Empresário do setor alimentício há mais de 30 anos avalia que inteligência artificial, robótica e automação devem aumentar produtividade sem reduzir o papel humano a funções repetitivas
O avanço da inteligência artificial, da robótica e da automação está mudando a forma como as indústrias produzem. Para Edson Braga, empresário do setor alimentício com mais de 30 anos de experiência, porém, a discussão não deveria se limitar aos empregos que podem desaparecer.
Na avaliação do empresário, uma das perguntas mais importantes é identificar quais tarefas já não deveriam continuar sendo executadas por pessoas.
Atividades repetitivas, fisicamente desgastantes, perigosas ou que exigem pouco julgamento podem ser transferidas para máquinas, enquanto profissionais assumem funções que dependem de conhecimento, decisão e criatividade.
Automação pode eliminar tarefas desgastantes
Em muitas operações industriais, trabalhadores ainda realizam movimentos repetitivos, levantam peso, entram em ambientes de baixa temperatura, conferem informações manualmente ou executam controles que poderiam ser automatizados.
A tecnologia oferece a possibilidade de reduzir esse tipo de atividade.
O objetivo não deveria ser simplesmente retirar pessoas da operação, mas reorganizar o trabalho para que máquinas executem tarefas nas quais repetição, força e precisão são mais importantes.
Máquinas podem assumir o que há de mais repetitivo
Sensores não se cansam de acompanhar temperatura. Sistemas conseguem conferir grandes volumes de informações em segundos, enquanto robôs podem repetir movimentos milhares de vezes sem perda de concentração.
Para o empresário, esse tipo de atividade representa uma oportunidade natural para automação.
O trabalho humano pode, então, ser direcionado para análise, controle, desenvolvimento, manutenção, gestão e tomada de decisão.
Tecnologia sem propósito pode aumentar complexidade
A adoção de equipamentos modernos, entretanto, não significa automaticamente inovação.
Uma operação pode adquirir robôs, sistemas e ferramentas de inteligência artificial sem resolver problemas reais.
Por isso, antes de investir, empresas precisam definir quais resultados pretendem alcançar.
Melhor qualidade, maior segurança, redução de desperdícios, eficiência energética, produtividade e melhores condições de trabalho são exemplos de objetivos que podem orientar decisões tecnológicas.
Sem clareza, o investimento corre o risco de se transformar apenas em complexidade adicional.
Produto continua sendo prioridade na indústria de alimentos
No setor alimentício, a automação precisa também contribuir para aquilo que chega ao consumidor.
Uma fábrica pode ser altamente tecnológica e ainda produzir um alimento com baixa diferenciação.
Por isso, aplicações relacionadas a matéria-prima, temperatura, fermentação, textura, conservação, rastreabilidade e padronização ganham importância.
A tecnologia deve apoiar o desenvolvimento e a consistência do produto, e não apenas aumentar a velocidade da linha.
Inteligência artificial pode transformar operações sem estar visível
Parte da mudança tecnológica pode acontecer sem grandes robôs instalados nas fábricas.
Sistemas capazes de analisar temperatura, umidade, consumo de energia, paradas, demanda, estoque e qualidade já permitem novas formas de acompanhamento industrial.
A inteligência artificial pode identificar relações entre essas informações e ajudar a prever falhas, ajustar produção, reduzir desperdícios e melhorar planejamento.
Esse tipo de transformação acontece principalmente por meio de dados.
Julgamento humano continua essencial
Mesmo com sistemas mais avançados, a responsabilidade sobre objetivos e limites permanece humana.
Uma inteligência artificial pode indicar uma formulação mais barata, mas alguém precisa avaliar seus efeitos sobre sabor, qualidade, composição e experiência do consumidor.
Da mesma forma, um algoritmo pode apontar o caminho de maior produtividade sem considerar aspectos culturais ou estratégicos da empresa.
Tecnologia calcula possibilidades.
A decisão sobre quais caminhos devem ser seguidos continua dependendo das pessoas.
Profissionais precisarão aprender novas competências
A automação também deve alterar o perfil de diversas funções.
Isso não significa que todos os trabalhadores precisarão se tornar programadores.
A tendência está em aumentar a familiaridade com equipamentos, dados e sistemas.
Operadores podem passar a interpretar informações, acompanhar indicadores e identificar desvios, enquanto técnicos assumem atividades mais sofisticadas de manutenção e controle.
A capacidade de aprender continuamente tende a ganhar importância em carreiras industriais.
Empresas também têm responsabilidade pela qualificação
A transição tecnológica não pode depender apenas da iniciativa individual dos trabalhadores.
Empresas que investem em automação também precisam considerar treinamento e desenvolvimento profissional.
Em alguns casos, pessoas que realizavam tarefas manuais podem ser preparadas para operar, controlar ou realizar manutenção dos equipamentos que passaram a assumir essas atividades.
Nem todas as funções serão preservadas, mas a forma como a empresa conduz a transição pode influenciar diretamente sua cultura.
Produtividade não significa apenas reduzir equipes
Eficiência e retorno financeiro continuam fundamentais.
Empresas mais produtivas possuem maior capacidade de investir, crescer e enfrentar períodos de instabilidade.
O problema surge quando produtividade é interpretada exclusivamente como redução do número de trabalhadores.
Uma visão mais ampla considera também a utilização de capital, matérias-primas, energia, tecnologia e conhecimento.
Produzir mais valor com os recursos disponíveis é diferente de simplesmente cortar pessoas.
Tecnologia pode ampliar capacidade humana
Uma das aplicações mais relevantes está em permitir que profissionais façam mais com melhores informações.
Desenvolvedores de produtos podem testar hipóteses com maior velocidade. Técnicos podem receber alertas antes de uma falha. Equipes de qualidade podem identificar desvios que seriam difíceis de perceber manualmente.
Gestores também podem visualizar perdas e oportunidades que anteriormente ficavam escondidas em grandes volumes de dados.
Nesse cenário, a tecnologia não substitui a inteligência humana. Ela amplia seu alcance.
Segurança também entra na conta da automação
A avaliação de um investimento tecnológico pode incluir indicadores que vão além da produção.
Redução de acidentes potenciais, eliminação de tarefas repetitivas, diminuição de esforço físico e menor quantidade de retrabalho também representam ganhos.
Esse tipo de resultado mostra que produtividade e condições de trabalho podem avançar juntas.
A fábrica do futuro não precisa ser vazia
O avanço da automação provavelmente reduzirá algumas funções operacionais, mas isso não significa necessariamente uma fábrica sem pessoas.
O cenário pode ser de operações com menos tarefas repetitivas e profissionais mais qualificados acompanhando sistemas, desenvolvendo produtos e tomando decisões.
Conhecimento tende a ganhar espaço em relação à força física.
A capacidade de analisar e aprender passa a ser cada vez mais importante dentro do ambiente industrial.
Formação profissional também faz parte do legado
Equipamentos e softwares possuem ciclos relativamente curtos de vida.
Já o conhecimento adquirido por um profissional pode acompanhá-lo durante décadas.
Uma pessoa treinada em automação, manutenção ou análise de processos pode levar essa experiência para outras funções, empresas ou setores.
Por isso, qualificação profissional também pode ser considerada resultado de uma transformação tecnológica bem conduzida.
Tecnologia boa elimina trabalho ruim
Para Edson Braga, a discussão sobre automação precisa avançar além da quantidade de pessoas que podem ser substituídas.
A pergunta principal deveria ser o que efetivamente ficou melhor depois que determinada tecnologia foi implementada.
Se o resultado envolve apenas redução de equipes, a transformação pode ter sido limitada.
Se também houve aumento de qualidade, segurança, produtividade, redução de desperdícios e criação de trabalhos mais qualificados, o impacto passa a ser mais amplo.
Nesse cenário, tecnologia deixa de representar apenas automação.
Passa a representar evolução da própria forma de trabalhar.
