Em 2023, os transtornos de ansiedade destacaram-se como a principal razão para anos vividos com incapacidade entre brasileiros de 5 a 29 anos, abrangendo todas as idades estudadas. Essa condição ocupou o primeiro lugar em um total de 375 doenças e lesões analisadas pelo GBD (Global Burden of Disease).
De acordo com a pesquisa, aproximadamente 15,6 milhões de brasileiros com idades entre 5 e 29 anos, representando 20,91% desta faixa etária, atendiam aos critérios para pelo menos um transtorno mental. Além disso, cerca de 2,5 milhões, ou 3,36%, apresentavam algum tipo de transtorno relacionado ao uso de substâncias.
A pesquisa foi divulgada na revista The Lancet Regional Health – Americas e conta com a colaboração de pesquisadores de várias instituições, incluindo o Hospital Moinhos de Vento e a UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Claudia Buchweitz é mencionada como a autora principal, enquanto Christian Kieling atua como autor correspondente.
Ansiedade mantém liderança desde os 5 anos
O aumento da prevalência de transtornos mentais é evidente desde a infância, passando pela adolescência até o início da vida adulta.
A taxa estimada entre crianças de 5 a 9 anos é de 12,06%. Esse número cresce para 18,81% na faixa dos 10 aos 14 anos, alcançando 23,58% entre os jovens de 15 a 19 anos. Para aqueles que têm entre 20 e 24 anos, essa porcentagem sobe para 24,27%, atingindo 24,95% entre os indivíduos de 25 a 29 anos.
No que tange à carga não fatal das diversas doenças analisadas no estudo, os transtornos de ansiedade continuam em primeiro lugar nas cinco faixas etárias avaliadas. A partir dos 15 anos, os transtornos depressivos ocupam o segundo lugar.
Com relação aos números absolutos, observa-se que nos grupos etários de 5 a 9 e de 10 a 14 anos a carga dos transtornos mentais é superior entre meninos. No entanto, ao atingir os 15 anos, as meninas e mulheres jovens apresentam uma maior quantidade de anos vividos com incapacidade.
Método utilizado para medir a incapacidade
A análise baseia-se na edição mais recente do GBD (2023), que fornece estimativas por idade, sexo e localização geográfica em um total de 204 países e territórios. O estudo abrange um total de 375 doenças e lesões.
A base dos dados é composta por informações coletadas em estudos publicados anteriormente, pesquisas nacionais sobre saúde pública, registros médicos de doenças e internações hospitalares, além de dados obtidos por meio de pesquisa domiciliar e fontes governamentais.
Para determinar a prevalência dos transtornos mentais analisados, foram feitos ajustes nos dados levando em consideração as variações nos métodos utilizados nas pesquisas. A carga associada à incapacidade leva em conta diferentes níveis severidade e atribui pesos à perda da saúde ao considerar múltiplas condições simultaneamente.
No total, os transtornos mentais resultaram em 2,16 milhões de anos vividos com incapacidade entre brasileiros na faixa etária dos 5 aos 29 anos em 2023. Juntas, as condições mentais e relacionadas ao uso de substâncias representaram cerca de 36,52% da carga não fatal em todas as causas avaliadas nesta população.
Estimativa aponta para 5.4 mil mortes anuais por suicídio
A pesquisa também incluiu uma análise das mortes decorrentes da autolesão – uma categoria utilizada pelo GBD para esse aspecto da mortalidade. Foram registradas aproximadamente 5.402 mortes anualmente entre brasileiros com idades entre 10 e 29 anos, sendo que dessa cifra constam 4.149 homens e 1.253 mulheres.
A taxa registrada sobe gradativamente: inicia-se com uma morte por autolesão a cada 100 mil habitantes na faixa etária dos 10 aos 14 anos e chega a uma taxa alarmante de até 13.43 mortes por cada grupo de100 mil pessoas entre os que têm entre 25 e 29 anos.
No contexto das causas prematuras de morte para jovens entre os dez e quatorze anos, a autolesão ocupa o oitavo lugar; já para aqueles acima dos quinze anos ela sobe para o terceiro lugar, mantendo essa posição até os vinte e nove anos.
Poucas fontes abordam brasileiros na faixa etária dos cinco aos vinte e nove anos
A pesquisa também destaca a falta de dados nacionais abrangentes. Entre as setenta e sete fontes disponíveis no GBD sobre transtornos mentais no Brasil em sua versão mais recente (2023), apenas 66 continham informações relevantes para indivíduos entre cinco e vinte nove anos.
No caso específico dos transtornos relacionados à ansiedade foram utilizadas somente onze fontes.
A produção científica mostra-se geograficamente concentrada; amostras oriundas do estado de São Paulo contribuíram para quarenta e um estudos sobre prevalência enquanto aquelas do Rio Grande do Sul participaram com trinta e sete estudos. As coortes provenientes de Pelotas tiveram um impacto considerável na base utilizada; Porto Alegre forneceu dados para oito investigações.
Os pesquisadores ressaltam que há uma carência significativa de informações específicas sobre diversas unidades federativas do Brasil assim como áreas rurais e populações vulneráveis. Para superar essas lacunas informativas o GBD utiliza modelagem estatística que gera estimativas mesmo onde faltam dados precisos; assim sendo é importante interpretar esses resultados levando em consideração tais limitações existentes.
Caso alguém necessite suporte emocional pode entrar em contato com o CVV (Centro de Valorização da Vida) pelo número 188. O atendimento é gratuito e disponível durante todo o dia.
