Dia D”: O novo longa de Spielberg explora o impacto das revelações em nossas vidas

O planeta enfrenta um momento crítico. As forças armadas da Coreia do Norte estão lutando para conter facções que ameaçam derrubar o governo e tomar o controle da nação. A Coreia do Sul permanece em estado de alerta total, preparada para um possível conflito armado. Enquanto isso, Estados Unidos e Rússia se encontram à beira de um confronto direto. Os americanos operam sob DEFCON 2, com suas tropas de combate prontas para serem mobilizadas. A União Europeia se prepara para ser impactada por uma potencial Terceira Guerra Mundial.

As informações sobre a possibilidade de um conflito dominam as manchetes, gerando um clima de apreensão entre a população, que se prepara para o pior. Em Kansas City, Missouri, a meteorologista e apresentadora Margaret Fairchild (interpretada por Emily Blunt) recebe uma visita inesperada, o que a leva a desenvolver habilidades extraordinárias, como ler a vida das pessoas, falar em diferentes idiomas e oferecer conselhos.

Simultaneamente, Daniel Kellner (Josh O’Connor), especialista em segurança, e sua namorada Jane (Eve Hewson) tentam escapar de Noah Scanlon (Colin Firth), líder da WARDEX, uma agência secreta que protege informações relacionadas a eventos envolvendo extraterrestres.

Essas tramas compõem o pano de fundo do filme “Dia D” (“Disclosure Day”), uma produção da Universal Pictures e Amblin Entertainment sob direção de Steven Spielberg e roteiro escrito por David Koepp.

Neste novo longa-metragem, Spielberg mais uma vez explora a questão da solidão humana no cosmos. Ele busca refletir sobre como a sociedade lidaria com verdades inegáveis. Além disso, como é comum em suas obras, também levanta uma importante indagação sobre nossa natureza: ainda somos capazes de ter empatia uns pelos outros ou apenas nos toleramos?

A carreira cinematográfica de Spielberg é marcada por filmes icônicos que abordam temas relacionados a OVNIs, como “Contatos Imediatos de Terceiro Grau” (Columbia Pictures, 1977), “E.T. O Extraterrestre” (Universal Pictures, 1982) e o remake de “Guerra dos Mundos” (Paramount Pictures, 2005). Outros títulos menos centrais mas conectados ao mesmo universo incluem “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal” (Paramount Pictures, 2008) e “Super 8” (Paramount Pictures, 2011), produzido por Spielberg e dirigido por J.J. Abrams.

Fechamento temático

“Dia D” não serve como sequência de “Contatos Imediatos”, mas atua como um fechamento temático para questões que intrigam Spielberg desde os anos 70: e se tudo isso fosse real? Passados quase cinco décadas, a sensação de encantamento dá lugar a um thriller conspiratório mais intenso que investiga não só o mistério em si, mas também as implicações políticas e humanas do encobrimento dessas verdades pela sociedade.

O roteiro elaborado por David Koepp coloca o filme nesse novo contexto. A narrativa é estruturada como um thriller conspiratório típico dos anos 70, diferente do filme original em que alguém busca revelar uma verdade enquanto forças poderosas tentam silenciá-la. Em 1977, havia um desejo coletivo por conhecimento; agora alguns personagens desejam que todos tenham acesso à informação.

“Dia D” é uma obra cativante desde seu início até o fim. Com um conjunto inicial de eventos aparentemente desconexos que gradualmente se entrelaçam para revelar uma visão mais ampla da situação. Spielberg não apressa as respostas; ele distribui pistas sutis através dos personagens e transforma a incerteza sobre os acontecimentos futuros em combustível para o drama.

Um aspecto fascinante do filme é sua abordagem sobre o impacto da verdade quando esta deixa de ser manipulada por governos e instituições. A narrativa discute desinformação, segredos, fé e controle em uma espiral complexa que provoca mais questões do que soluções sobre como lidar com realidades que desafiam nossas crenças organizadas.

Margaret simboliza esse dilema; ela inicia sua jornada como alguém habituada a relatar previsões climáticas ao público. No entanto, gradualmente se vê lidando com informações cujas origens são desconhecidas para ela. Por outro lado, Daniel representa o extremo oposto: aquele imerso na segurança das informações confidenciais e nas estruturas criadas para proteger verdades incômodas.

Noah Scanlon pode parecer apenas um antagonista burocrático interpretado por Colin Firth. Contudo, sua defesa pela manutenção do segredo não vem apenas da malícia; ele acredita que certas verdades têm o potencial de desestabilizar toda a ordem social e até mesmo levar à extinção da civilização. Para ele, não existe opção para recomeçar.

Em “Dia D”, Spielberg se foca mais nas consequências do medo sobre a verdade do que em dividir personagens entre heróis e vilões.

A verdade pertence a quem?

Na parte final do filme, o diretor apresenta uma cena dentro de um centro nervoso na NBC News localizado no famoso 30 Rockefeller Plaza. Essa escolha não é aleatória; Spielberg detalha como informações são verificadas rapidamente antes de serem compartilhadas com outras redes como ABC News, CNN e BBC em questão de segundos. Isso levanta uma importante questão: quem realmente narra a verdade quando ela finalmente vem à tona? O jornalismo ou apenas alguns jornalistas?

Existem momentos até cômicos ao ver multidões alheias ao mundo exterior concentradas em seus smartphones ou telas assistindo às revelações antes ocultas.

“Dia D” não pode ser considerado o filme definitivo sobre extraterrestres nem uma obra-prima dentro da filmografia de Spielberg. É uma crítica contundente à sociedade contemporânea envolvendo seres intergalácticos sem focar exatamente neles; trata-se mais sobre os segredos que guardamos e quem detém controle sobre nosso conhecimento coletivo — além das conexões humanas possíveis quando verdades evidentes emergem à luz.

A indagação já não é mais “a verdade está lá fora?”. Agora é: se você descobrisse que não estamos sozinhos no universo – se alguém provasse isso – você ficaria aterrorizado?

By Blog do Quadrante

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