Tânio Barreto revive histórias de Slater, Andy Irons e os conflitos do mundo do surfe

Momento icônico entre Tânio Barreto e Andy Irons durante o WCT de 2004, que selou o último título mundial do havaiano. Foto: Arquivo pessoal
O convidado da mais recente edição do Fala Papah! é Tânio Barreto, um campeão brasileiro amplamente reconhecido por sua abordagem estratégica nas competições. O surfista alagoano rememorou passagens significativas de sua carreira, disputas acirradas, histórias de bastidores e detalhes menos conhecidos de sua jornada no universo do surfe.
No decorrer de uma conversa que durou cerca de uma hora, Tânio Barreto no Fala Papah abordou temas que incluíram figuras como Kelly Slater, Andy Irons, Joel Parkinson, Léo Neves e Adriano de Souza, todos representantes de uma geração que enfrentou um cenário bem distinto do atual circuito mundial.
Confronto com Kelly Slater na Austrália
Dentre as narrativas mais impactantes está a que ocorreu na Austrália, onde Tânio alcançou a final em uma etapa do circuito classificatório contra Kelly Slater, Adrian Buchan e Phillip MacDonald.
Esse resultado tinha um significado especial para ele. No ano anterior, durante uma competição no mesmo país, Tânio havia enfrentado uma grave crise de hipoglicemia após longas jornadas de viagens e treinamentos sem o devido descanso.
Forçado a retornar ao Brasil antes da hora, chegar à final no ano seguinte tornou-se uma vitória pessoal significativa.
Tânio destacou que essa experiência serviu para reforçar um aspecto que sempre o acompanhou: a preparação. Embora não se considerasse o surfista mais talentoso, ele buscava compensar isso com dedicação ao treinamento físico, foco e planejamento estratégico.
Vitória sobre Joel Parkinson e apoio a Andy Irons
Outro episódio marcante aconteceu em Imbituba, em 2004, durante uma etapa do circuito mundial.
Tânio foi convidado a participar e avançou até as semifinais. No caminho, se deparou com Joel Parkinson, que na ocasião lutava diretamente pelo título mundial contra Andy Irons.
A vitória sobre Parkinson garantiu matematicamente o tricampeonato para Irons.
Pós-batalha, Andy expressou seu agradecimento a Tânio e brincou dizendo que ele merecia um “green card” para surfar no Havaí.
No entanto, Tânio lembrou que a realidade nas ondas havaianas ainda era desafiadora. Naquele período, os atletas brasileiros enfrentavam considerável resistência nos principais picos do arquipélago.
“Deixei muita gente traumatizada”
Certa vez Tânio comentou sobre sua abordagem competitiva e suas conhecidas marcações em baterias. Durante o programa Fala Papah!, Christiano Spirro havia feito piadas sobre como Tânio costumava perseguir seus adversários nas competições. Ao ser questionado sobre isso, ele não hesitou em reconhecer sua fama.
O ex-surfista revelou que estudava detalhadamente as regras das competições para entender como poderia afetar mentalmente seus opositores. Além disso, mencionou que muitos competidores se incomodaram com suas táticas.
“Deixei muita gente traumatizada”, afirmou ele.
Tânio recordou ainda uma semifinal na Austrália onde os ânimos se exaltaram tanto que ele e um rival australiano acabaram trocando socos dentro d’água durante uma remada por uma onda.
Lembrou também das disputas estratégicas contra surfistas como Léo Neves e Adriano de Souza. Um exemplo foi na Praia da Tiririca em Itacaré, onde suas táticas forçaram ambos a se afastarem da área principal da competição.
Para ele, isso fazia parte do jogo. Seu objetivo sempre foi encontrar formas de neutralizar adversários tecnicamente superiores para aumentar suas chances de vencer.
Vivência na Europa e incursão política
A entrevista também abordou sua decisão de residir em Barcelona enquanto competia no circuito europeu.
Nessa época, Tânio levantou questionamentos sobre o modelo formativo dos surfistas brasileiros. Para ele, embora o Brasil produzisse bons campeões nacionais, havia necessidade de preparar melhor os jovens para o cenário internacional.
Anos depois surgiram novos talentos como Gabriel Medina, Adriano de Souza, Filipe Toledo, Ítalo Ferreira e Yago Dora alterando esse panorama.
Tão logo se afastou das competições profissionais, Tânio entrou na política. Ele se candidatou a vereador e deputado estadual além de assumir a presidência estadual de um partido em Santa Catarina.
Ele comentou que essa experiência trouxe valiosos aprendizados mas também grandes desilusões. Em determinado momento decidiu deixar a vida política para retornar ao foco no surfe e na família.
A Federação Alagoana e retorno às raízes
Um capítulo importante na sua trajetória foi sua passagem pela presidência da Federação Alagoana de Surf.
Tânio utilizou sua vivência como atleta e político para organizar eventos e captar recursos para o surfe alagoano.
Sua gestão se encerrou recentemente. Ao invés de buscar reeleição, optou por encerrar esse ciclo e dedicar mais tempo à sua vida pessoal.
No entanto, fez críticas à nova oposição assumida posteriormente e expressou esperança de que continuem comprometidos com os atletas locais e com a realização das competições necessárias.
Segundo Tânio, Alagoas ainda possui talentos promissores e boas ondas capazes de revelar novos atletas no cenário nacional; porém o investimento continua sendo um dos principais desafios enfrentados.
A trajetória marcada por competição e superação
Ao refletir sobre seu passado competitivo, Tânio expressa uma frustração central: a falta de consolidação no circuito mundial.
No entanto, sua trajetória é rica em conquistas como títulos brasileiros, finais internacionais notáveis contra grandes nomes do esporte,e experiências tanto no Havaí quanto na Europa—todas contribuindo para contar uma fase significativa da história do surfe nacional.
A edição completa com Tânio Barreto no Fala Papah! já está disponível online e traz muitas outras narrativas fascinantes sobre os bastidores da competição entre uma das gerações mais competitivas do surfe brasileiro.






